Advogando sem dinheiro: é possível ser feliz no vermelho?


Hoje vamos debater a questão “É possível ser feliz advogando no vermelho?”

Para advogados evoluídos espiritualmente, aqueles do tipo “desapegados”, a falta de clientes, os boletos acumulados, o ônibus lotado, o nome negativado, a conta bancária zerada, o apartamento minúsculo, o “não” para o filho, o “não podemos” para a esposa, o paletó surrado e o furo na sola de sapato, não são realmente problemas.

Mas e para nós, meros mortais, isso é um problema? E ainda: podemos ser felizes sem dinheiro?

Pesquisas demonstram que o nível de felicidade das pessoas não cresce proporcionalmente à medida que ficam ricas.

Uma pessoa que possui patrimônio de R$ 3 milhões não é 3 vezes mais feliz que alguém que possui R$ 1 milhão e nem 6 vezes mais feliz do que alguém que possui patrimônio de R$ 500 mil.

Não existe uma proporcionalidade nisso, mas com certeza, alguém que consegue satisfazer as necessidades básicas é mais feliz do que alguém que não consegue.

Pensando nesse assunto, o psicólogo Abraham Maslow criou uma pirâmide de níveis de necessidades humanas onde as demandas que estão na base são as mais importantes e precisam ser satisfeitas com urgência para gerar felicidade, contudo, elas não representam grandes somas de dinheiro.

O problema está quando já ultrapassamos a primeira camada das necessidades básicas (fisiológicas e de segurança), que eu acredito que seja o seu caso agora, afinal, se você tem internet para acessar esse artigo, possivelmente tem celular, computador, está vestido, abrigado, faz pelo menos três refeições por dia, tem instrução acadêmica e uma média razoável de saúde.

Quando ultrapassamos a camada das necessidades básicas e chegamos às necessidadespsicológicas e de autorrealização, então o consumo começa a acontecer por razões emocionais e psicológicas, e nesse ponto, o céu é o limite.

Percebam que nas necessidades psicológicas, as pessoas buscam atender a sua autoestima, confiança, adquirir o respeito dos outros, o reconhecimento social e status.

Nesses níveis superiores à sobrevivência, para que uma pessoa se sinta feliz, ela precisa se perceber importante e admirada (ou invejada) pelos outros.

Aqui começa a corrida dos ratos!

É nesse ponto que um advogado em início de carreira escolhe alugar uma sala sem ter concluído a pós-graduação, ou ter um cliente sequer.

É nesse ponto que, por exemplo, um advogado mais experiente custeia dois carros de luxo, comprometendo mais de 40% da sua renda, enquanto seu concorrente utiliza 10% disso para andar de uber.

É nesse ponto que outra advogada pode investir R$ 5.000 para fazer um lindo site e material gráfico de impressionar, mesmo sem saber se isso é relevante para o seu público alvo.

Também é nesse ponto que todo consumo se justifica pelo consumidor a partir da ótica do outro, por exemplo, quem aluga uma sala em um prédio “decente” mesmo sem ter clientes para cobrir essas despesas, acredita que não terá credibilidade e respeito se não tiver um espaço próprio para atender bem.

Quem compra um carro pagando quatro deles em taxas de juros, acredita que vai fechar mais contratos com facilidade por aparentar sucesso financeiro.

E antes que alguém pense que estou fazendo apologia ao minimalismo, quero te lembrar sobre como ser feliz sem dinheiro ou sem clientes, mas para isso, preciso te explicar o que está por trás das decisões de consumo.

Existe uma visão familiar que vincula competência à ostentação de riqueza, e muitos advogados se veem compelidos a manter esse status frente a seus pares e a sociedade, elevando demasiadamente suas despesas.

Essa armadilha tem levado muitos profissionais a conviverem com perigosos níveis de endividamento, questionando sua escolha profissional quase diariamente.

Imagine um jovem advogado que dificilmente adquiriu experiência profissional, mas, que ainda assim, precisa ostentar sucesso financeiro e domínio técnico para parecer crível aos seus primeiros clientes…

Para quem inicia a carreira jurídica, ainda na faculdade, uma questão é evidente: todo o processo de formação acadêmica não é nada barato, ou seja, aliada à característica anteriormente discutida de passar muitos anos sem obter receitas, as despesas são quase insuportáveis para a maioria.

Por outro lado, todo profissional almeja ser valorizado pela sociedade, mas somente alguns são vistos como referência em sua área de atuação.

A maioria dos colegas, no desespero pela sobrevivência, assumem práticas que só contribuem com a sua própria desvalorização, atuando sem segurança em todas as áreas, quando o melhor seria se posicionar para um público mais qualificado.

Eu entendo que o sucesso é um conceito subjetivo, mas sempre está ligado à ideia de felicidade, mesmo que a sua busca seja feita de maneira equivocada.

Para uns, ter sucesso significa conquistar e ostentar patrimônio. Para outros, sucesso representa prestígio e reconhecimento intelectual no meio em que atua. Há aqueles que dizem que sucesso é ter influência junto às pessoas. Os mais objetivos atribuem a ele o simples fato de fazerem o que gostam e, com isso, serem felizes. De fato, nenhum deles detém a verdade absoluta e, ao mesmo tempo, todos estão convictos de suas crenças.

No fundo, a gente sabe que pode conquistar a admiração das pessoas através dos nossos atributos de caráter. Podemos ser aceitos e admirados por sermos generosos, sermosinteligentes, sermos amigáveis, sermos prestativos, sermos ativos. O problema é que “ser”exige tempo, força de vontade, trabalho e dedicação.

Então, para encurtar o caminho entre o SER e PARECER SER, surge o uso do dinheiro. Isso torna o trabalho mais fácil e o resultado mais rápido.

No lugar de SER importante você pode TER coisas que te façam parecer importantes, tais como: viagens internacionais, carros importados, roupas de grife, escritório elegante, papelaria de dar inveja e todo tipo de signos de riqueza.

O mercado é preparado para atuar a partir das necessidades psicológicas, e realmente se apavora com a ideia de felicidade incondicional, afinal, isso representaria a destruição total de suas próprias necessidades psicológicas, percebem a sutileza?

Atualmente, a maioria dos advogados trabalham enlouquecidamente para consumirem signos de riqueza que possam proporcionar-lhes status e reconhecimento social.

Para Maslow, o dinheiro que precisamos para satisfazer as nossas necessidades básicas está bem longe do conceito atual de fortuna. Mas para ganhar o respeito das pessoas, ainda acreditamos, equivocadamente, que precisamos ostentar signos de riqueza.

Nesse aspecto matemático, surge Andrew T. Jebb, o autor principal de um estudo que tentou averiguar o quanto de dinheiro é necessário para se viver feliz. O objetivo desta pesquisa foi avaliar qual é a renda que pode proporcionar “felicidade” para o indivíduo.

E o resultado da pesquisa apontou para uma renda anual de 95 mil dólares, para se ter uma boa avaliação do padrão de vida e de 60 mil a 75 mil dólares para poder viver com bem-estar emocional.

Outra constatação do Professor Jebb é que se esse valor financeiro for excedido, a expectativa e busca de maior bem-estar econômico pode se intensificar, mas a felicidade continuará inalterada, correndo o sério risco da pessoa se tornar escrava do ganho de dinheiro, ou seja, dinheiro demais pode gerar insatisfação. Não é por outro motivo que pessoas muito ricas começam a se envolver com projetos filantrópicos.

E NO BRASIL?

Ao longo de 2016 foi feito um levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD).

Se formos partir dos pressupostos da pesquisa do professor Jebb, “o nível de felicidade” dos brasileiros não está nada satisfatório.

Vejam as estatísticas do IBGE no ano de 2017 dizem sobre a renda dos brasileiros:

Do total de trabalhadores, 4,4 milhões (5%) recebiam, em média, apenas R$ 73 mensais

889 mil (1%) recebiam, em média, R$ 27 mil

O QUE ISTO SIGNIFICA?

Significa, que no período correspondente a esta pesquisa, chegou-se aos seguintes apontamentos:

Os brasileiros que tinham maiores rendimentos recebiam 360 vezes mais que os com menores rendimentos.

A soma dos rendimentos recebidos por todos os brasileiros em 2016 foi de R$ 255 bilhões por mês, em média, desse valor, 43,4% estava nas mãos de 10% da população do país.

Ainda segundo o IBGE:

Apenas 1% dos brasileiros concentra 43% da renda do país.

A renda média real domiciliar per capita foi de R$ 1,2 mil por mês em 2016.

Nas regiões Norte e Nordeste, a média foi de R$ 772.

A maior média foi observada no Sudeste, com R$ 1,5 mil.

Fica notório nestas informações que a maioria do povo brasileiro não chega nem a 1% do limiar financeiro da pesquisa do Professor Jebb, o que nos indica que as necessidades básicas ainda não estão sendo atendidas em sua maioria.

E aqui voltamos ao ponto inicial da nossa conversa: como ser feliz advogando no vermelho?

Vou compartilhar alguns pontos que me ajudaram nos momentos difíceis, e alguns exemplos que eu vi funcionar com clientes e amigos:

1º Luz: identifique suas necessidades básicas, sem as quais você morreria em uma semana. Isso te trará uma noção mais lúcida sobre eventuais excessos atuais.

2º Luz: identifique suas necessidades de ordem psicoemocionais se perguntando:

1. O que eu quero adquirir na vida?

2. Como eu quero que as pessoas me vejam?

Depois de responder tudo que lhe vier à mente com essas perguntas, identifique o que pode ser comprado com dinheiro e priorize aquilo que não depende de uma troca financeira.

3º Luz: Utilize a tecnologia (existem muitas opções gratuitas) para criar uma estrutura enxuta na sua advocacia. Um dos meus grandes amigos e parceiro de trabalho, o Edu Koetz, Sócio Gestor do 1º escritório 100% digital do país, é a prova viva de como ser referência no mercado sem atender um cliente sequer presencialmente.

Se ele não tivesse inteligência de mercado e tecnologia à seu favor, certamente a sua estrutura custaria 20 vezes mais, além disso, o seu maior diferencial não é apenas esse ponto, mas sim o seu alto grau de inteligência emocional que o faz acessar um estado de satisfação interior com as coisas simples da vida.

4º Luz: Invista em inteligência emocional para ter mais autonomia na vida. A maioria das nossas escolhas envolve consumo de ordem psicoemocional, e, portanto, podem ser satisfeitas com apratica do autoconhecimento, elevação da autoestima e da nossa confiança. Isso requer tempo, mas não requer dinheiro. A internet traz muito conteúdo de qualidade nesse sentido.

5º Luz: Você se acha melhor do que Jesus? Porque nem ele conseguiu agradar a todos. Ele não foi aceito por todos, muito menos reconhecido por todos, mas ainda assim, sua figura ainda permanece na história da humanidade.

Não podemos agradar a todos: Seja você quem for, tenha as virtudes que tiver, você nunca vai agradar todo mundo. Alguém sempre irá te criticar e reprovar, e isso acontecerá a todo ser humano neste planeta. Por isso, ter a necessidade de aprovação é o pior vício que um ser humano pode manter.

6º Luz: Se aprove sendo você mesmo!

Paradoxalmente, as pessoas que não pensam na aprovação costumam ser mais aceitas do que aquelas que a buscam. A explicação seria que o autêntico agrada mais, ainda que não coincida com nossas opiniões, do que o submisso.

Então, seja você mesmo sem buscar essa aprovação; seja autêntico sem se preocupar com a opinião externa, pois tentando agradar você obterá o efeito contrário.

Isso é treino, não é talento. Ninguém nasce se amando incondicionalmente, nem totalmente blindado à opinião alheia, mas podemos treinar a nossa mente para acessar um lugar interno de independência emocional.

7º Luz: Fortaleça sua autoestima com a mesma garra que você busca dinheiro!

Uma das principais causas da necessidade de aprovação e do consumo inconsciente é uma autoestima baixa. Fortalecê-la nos ajudará a resolver o problema. Quando acreditarmos que somos pessoas valiosas e tivermos uma autoimagem positiva, não dependeremos da opinião alheia. A visão dos outros sobre nós passará a ser um dado, uma informação, e não uma verdade.

Isso é o maior tesouro que um ser humano pode alcançar, se amar mesmo não sendo amado, se aceitar mesmo não sendo aceito, se nutrir mesmo não sendo abastecido, e mais uma vez, isso é treino, não é talento, e, portanto, você também pode alcançar.

Agora me conta: o que você pode oferecer ao seu cliente, que o deixe extremamente encantado, mas que não envolva dinheiro?


Categorias: Coaching para Advogados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *